
Tentei identificar três espécies de aves e não consegui, pelo menos não com a certeza que eu esperava. Eu havia fotografado os pássaros, às margens do Rio São Francisco, no final do ano passado, de maneira “desencanada”, no trivial trajeto casa-trabalho, embora as fotos em questão tivessem um fim especifico: participar de um concurso sobre jornalismo ambiental.
Outro concurso surgiu, agora mais específico, e desta vez, a necessidade (não exigência) de citar as espécies das aves fotografadas. E então vi o monitor LCD do computador qual simulacro de um espelho no qual estava refletida a cara de alguém completamente ignorante a respeito do que (em minha opinião) deveria ser elementar a qualquer um que se preze: identificar uma ave silvestre ao menos pelo seu nome popular.
“Eu mesmo não saberia, precisaria aprender, consultaria um livro ou a internet”, pensará o(s) leitor(es). Observo e acrescento: a vida urbana numa sociedade tecnológica, multimidiática e o escambau, traz sérias dúvidas sobre nossa capacidade de (sobre)vivência sem as facilidades proporcionadas por tantos gadgets tecnológicos e regalias. Sobrevivência que a meu ver, inclui desde apontar o nome de um pássaro a produzir fogo.
Sem termos sido ao menos escoteiros (e sequer lido o Manual do Escoteiro Mirim dos sobrinhos do Donald) saberíamos viver sob cabanas (aliás, dominaríamos a intrincada arquitetura das cabaninhas forradas de palha que não deixam uma gota de água passar?) Pescar, caçar, arrumar alimento numa situação adversa? Identificar quais plantas poderíamos comer, quais delas serviriam como remédio e quais cogumelos selecionar para os rituais de comunicação com a (s) divindade(s) - (lembrem-se, voltamos a um estado de quase “pré-civilização”) sem o risco de um envenenamento mortal?

Estaríamos aptos a ensinar nossos filhos sobre os cantos das aves e suas rotas migratórias? Como proteger-se das feras e identificar suas pegadas? Como produzir roupas e esconder nossas “vergonhas”? Ajudar uma mulher em trabalho de parto? Como guiar-se usando as estrelas? Teríamos memória e oratória suficientes para recontar nossos mitos e repassar nossos conhecimentos, apenas por meio da oralidade?
“Conhecimento dispensável, ultrapassado... e até perigoso!”, observará outro (s) leitor (es). Na prática, pode até ser, mas é incrível como todo um corpus capaz de fazer agrupamentos humanos se transformarem em civilizações complexas é tratado com tamanha displicência, justamente na “era da informação” - os conhecimentos citados acima e tantos outros estão empacotadinhos, em formato PDF ou Word, acessíveis por meio de milhões de páginas da web, em qualquer lan house de beira de esquina; nunca foi tão fácil saber como produzir fogo a partir do atrito de minerais (usando sílex e piritas, pois é, aí está o Google para responder).
Mas paradoxalmente, ninguém (a não ser, claro, alguma espécie de nerd dos mais sui generis) se lembraria como identificar as tais “pedras mágicas” quando fosse extremamente necessário, por questão de vida ou morte, para matar o tédio de uma noite de terça-feira ou simplesmente, para impressionar os amigos e a namoradinha (o que, no caso do nerd, seria extremamente necessário). E poucos trazem consigo qualquer item desse aprendizado desde cedo, obviamente porque não vivemos mais numa era de “homens da caverna” ou coisa do tipo (muito embora cedo ou tarde sempre alguém acaba se perdendo na mata, em meio a uma tempestade em alto mar, se vê obrigado a socorrer um ferido ou a realizar um parto sem o mínimo dos instrumentos apropriados).
Voltando as minhas aves, é certo que há milhares de espécies e mesmo um pesquisador tarimbado poderia encontrar dificuldade para identificar algumas delas. Alguém pode argumentar que bastaria eu dedicar algum tempo de estudo a ornitologia ou a observação dos pássaros. Ainda assim não me serve de consolo, porque a mim me parece algo “ancestral”, “natural” – acho até que deveria ser uma espécie de “código fonte” da nossa existência – o conhecimento, o mais cedo possível, do legado de nossos antepassados (como os nomes dados às aves), das mais rudimentares técnicas de domínio da natureza e de sobrevivência.

Por esse motivo e mesmo que um dia me tornasse um ornitólogo tão bom a ponto de ser capaz de identificar uma ave apenas por uma pena que ela tivesse deixado cair, vou carregar a frustração de não saber dizer, de bate-pronto e com total certeza, se aquelas aves fotografadas numa manhã de um dia em dezembro de 2007, à beira do Velho Chico, eram realmente (como supus), uma garça-branca-pequena, um papa-formigas e um bando de patos-mergulhões.
Mas paradoxalmente, ninguém (a não ser, claro, alguma espécie de nerd dos mais sui generis) se lembraria como identificar as tais “pedras mágicas” quando fosse extremamente necessário, por questão de vida ou morte, para matar o tédio de uma noite de terça-feira ou simplesmente, para impressionar os amigos e a namoradinha (o que, no caso do nerd, seria extremamente necessário). E poucos trazem consigo qualquer item desse aprendizado desde cedo, obviamente porque não vivemos mais numa era de “homens da caverna” ou coisa do tipo (muito embora cedo ou tarde sempre alguém acaba se perdendo na mata, em meio a uma tempestade em alto mar, se vê obrigado a socorrer um ferido ou a realizar um parto sem o mínimo dos instrumentos apropriados).
Voltando as minhas aves, é certo que há milhares de espécies e mesmo um pesquisador tarimbado poderia encontrar dificuldade para identificar algumas delas. Alguém pode argumentar que bastaria eu dedicar algum tempo de estudo a ornitologia ou a observação dos pássaros. Ainda assim não me serve de consolo, porque a mim me parece algo “ancestral”, “natural” – acho até que deveria ser uma espécie de “código fonte” da nossa existência – o conhecimento, o mais cedo possível, do legado de nossos antepassados (como os nomes dados às aves), das mais rudimentares técnicas de domínio da natureza e de sobrevivência.

Por esse motivo e mesmo que um dia me tornasse um ornitólogo tão bom a ponto de ser capaz de identificar uma ave apenas por uma pena que ela tivesse deixado cair, vou carregar a frustração de não saber dizer, de bate-pronto e com total certeza, se aquelas aves fotografadas numa manhã de um dia em dezembro de 2007, à beira do Velho Chico, eram realmente (como supus), uma garça-branca-pequena, um papa-formigas e um bando de patos-mergulhões.



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